Provérbios, 14:1
Eu acho incrível a capacidade que as pessoas estão desenvolvendo de manipular os dados e fatos em benefício próprio. Assim vimos dois dos maiores tolos de nossos tempos assumirem a presidência dos Estados Unidos da América e do Brasil. Manipulação de dados, distorção dos fatos, narração tendenciosa de notícias. Um coquetel perigoso que bebemos todos de um só gole e que agora nos consome a sanidade, nossos corpos estão ruindo sob essa força destruidora que nem mesmo o mais bem preparado fisiculturista consegue suportar. E não há ai qualquer novidade. Muito apelativamente, vou mencionar o livro mais traduzido e editado de todos os tempos para embasar a minha teoria: a bíblia.
Provérbios 14:1. Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos. Eu, do auge do meu feminismo latente e ativista, acho que tudo ai faz sentido e deveria ser estampado em camisas para que usássemos pelas rua. Mas quem conta um conto aumenta um ponto e, a cada homilia, representantes das mais variadas correntes cristãs do mundo fazem uso desta mesma frase como arma de dominação. Esquece dos revolveres e das bombas de hidrogênio, a humanidade vai sucumbir sob a força da desinformação.
Veja bem, nada aqui é mais do que a simples observação de duas verdades possíveis e, acima disso, credíveis. Para construir uma casa é preciso um saber, evidente. É preciso cavar bem, armar a estrutura, fazer a massa, assentar tijolos. Edificar uma casa requer saber e nisso não há surpresa. A tola, por outro lado, empilha tijolos no barro fresco e não ordena a construção. Eventualmente, vai derrubar a própria casa, não tenho dúvidas. E deve fazê-lo antes mesmo de subir a estrutura do telhado. É preciso ser tola para derrubar uma casa, nisso concordamos. Agora deixemos de lado o literal e abracemos a beleza do surreal, do imaginário, do variante, do inacabado, do descabido.
Uma mulher sábia edifica a sua casa porque não espera que ninguém o faça por ela. Ela arregaça as mangas, cava a fundação e sobe cada parede porque ela é capaz fazê-lo e porque ela é por demais inteligente para permanecer ao sereno tendo acesso a tudo de que precisa. Uma mulher sábia não espera chover, ela vai atras da água e prepara a própria massa. Ou não, ela pode pegar o telefone e ligar para uma construtora local, encomendando a casa como for de sua vontade. Agora aguarda a obra enquanto aprecia uma margherita de pequi. Sábias. Sim, dessas mulheres todos nos orgulhamos e queremos que sirvam de exemplo a todas as outras. Não há ai qualquer mal, neste cenário somente abunda a sapiência.
A tola? A tola derruba a casa porque não entende que terá dois trabalhos: o de derrubar e, por conseguinte, de reconstruir. E ai sim, é uma completa tola! Talvez, ainda, seja uma tola por pensar que alguém virá a cavalo reconstruir o seu lar, não o sei por certo. Há muitas possibilidades mas uma certeza: a tola ainda não aprendeu que também pode ser sábia. Porque todas podemos mas nem todas sabemos que podemos. Em todas nós há força e poder, há inteligência e uma capacidade inesgotável de se superar e se reinventar. Nenhuma mulher é fraca e incapaz, como não há leite materno que não seja o suficiente para a própria cria. São fatos que deturparam para nos convencer de que não podemos, de que não devemos, de que não merecemos.
Seis anos atrás meu marido, durante uma briga, me disse que o problema era que antes o meu peito era dele e que, depois do nascimento de nosso filho, ele perdeu o livre acesso. Desnecessário dizer que é, agora, meu ex-marido, mas a crença dele na propriedade sobre o meu corpo é um reflexo de algo maior que ele sozinho e do que nós dois juntos. A fala dele reflete o que temos difundido como verdade desde que a história é registrada: a mulher pertence ao homem e o seu corpo é território de prazer do outro. E desta forma aprendemos que não podemos escolher que tipo de cabelo devemos ostentar ou que tipo de roupa devemos usar. Não somos senhoras de nossas realidades, nossa existência serve à existência de quem nos tira da casa de nossos pais e a eles devemos serventia. Só que não, nunca mais.
O discurso de que devemos ser sábias o suficiente para manter a casa limpa, a comida quente, os filhos educados e os maridos sexualmente interessados levou Maria Antonieta à guilhotina e deu fim a uma das maiores monarquias que já vimos mas ainda há quem acredite nesse modelo social. Todos os dias mulheres sacrificam o próprio prazer e se impõem fome para agradar os olhos dos outros. Aceitam o papel de única responsável pela educação dos filhos, acreditam que devem dar conta das falhas dos companheiros. Como se estes merecessem a alcunha de companheiro! Livres de toda culpa que o patriarcado nos impõe, eles cultivam as suas barrigas flácidas sem medo de rejeição. O sacrifício feminino segue pela educação negligenciada, pela depilação forçada, pelas roupas que nos limita os movimentos enquanto nos fere o corpo.
Eu sei que, neste exato ponto, cada uma e cada um dos leitores vai rir e me falar, mentalmente, que estou louca. É normal e esperado. Passo por isso a toda vez que me permito entrar neste tipo de debate mas garanto que louca eu não sou. Vocês estão pensando que a academia, a depilação, o cabelereiro e as grifes e modismos são um capricho das mulheres para si, para que se sintam bem. Também já acreditei nisso, não os culpo. Ainda assim, encorajo que perguntem a uma mulher se ela gosta de se depilar, de passar fome, de se vestir de forma desconfortável. Uma pergunta por vez para que o excesso de verdade ao fira ninguém. Encorajo que, despretenciosamente, eleja um tópico e abrace o diálogo que se segue.
Infelizmente não posso pausar a escrita para que o experimento proposto se dê mas aguardo os resultados em futuro não muito distante. Adianto que o número de mulheres que mantem a rotina sacrificante de uma modelo em meio de temporada o faz para que a vejamos bem e bela. Ela não faz por ela, faz por quem olha para ela. Ela não quer ser bonita, ela quer ser vista como bonita. Talvez ela nem mesmo aprecie o corpo trabalhado por horas semanais na academia mas ela precisa que os outros vejam nela um exemplo de saúde e beleza. Como resultado, acabamos por vê-las belas, é verdade, mas nunca bem. Se há mulheres que abraçam livremente esta rotina e que têm verdadeiro prazer em adorar o próprio corpo? Sim! Certamente há. Mas na sua pesquisa de campo, há de enfrentar a dura realidade: as mulheres não cuidam de si. Todo o cuidado que se impõem é produto da sua falta de estima por si, é uma tentativa desesperada de que sejamos alvo de amor e bem-querer.
A mulher sábia edifica o lar e é essa que todas desejamos ser, sabemos disso. Entretanto, nos tiraram este poder durante milênios de mentiras e opressão. Geração após geração nos disseram que somos bonecas de porcelana adoráveis que vivem no único intuito de sermos adoradas pelo macho que nos comprar ao balcão de nossos pais. Podem não acreditar mas a verdade é que as sociedades tribais originais, leia-se homens e mulheres das cavernas, tinham como regra a igualdade de gênero e as tarefas eram distribuídas por interesse pessoal e habilidade. Nunca homens foram capazes de parir ou mulheres foram capazes de inseminar o corpo masculino mas todas as funções não-biológicas, ou seja, sociais, eram de responsabilidade de todos e todos tinham liberdade de escolher como contribuir.
Eu admito que existe uma fragilidade inerente a mulher e ai não vai haver discussão. Como muitas fêmeas de outras espécies, guardamos leito após o parto e não podemos, então, caçar ou edificar, mas a necessidade de consumo diário de carne é outra falácia! Não é o resguardo que impede a mulher de exercer as suas tarefas sociais, eu garanto. Ainda assim, vamos deixar combinado derrubar um mito por vez. Por ora, a mulher caçadora pode se dedicar a lactar o seu recém parido filho enquanto a tribo sobrevive a base de grãos, frutas e legumes, algo perfeitamente normal e aceitável ainda hoje. Deixemos o consumo de carne para outra ocasião.
Sim, sociedades mais simples têm maior flexibilidade e capacidade de consensos, não discuto ai, mas quando deixamos de ser igualmente capazes de caçar e cultivar? Quando o braço da mulher deixou de ser bom o suficiente para virar massa e subir uma parede? É, fui educada em casa de meus avós e lá todos contribuíamos igualmente na hora de emassar ou de trocar uma fiação, mas eu recebi de bandeja todo o pacote de ter que aprender a cozinhar e a cozer de brinde. Era preciso estar pronta para o desafio do casamento. Se eles ao menos soubessem que a solução para o desafio do casamento não está nas roupas remendadas e na necessidade de comida à mesa... Ali naquela casa a vontade de perpetuar o lugar criado para as mulheres da sociedade niteroiense foi significantemente abalada pelas dificuldades que meu avô enfrentava de executar as tarefas de macho por si só.
Todavia a pergunta nos acompanha: quando nos tornamos fruto do social a tal ponto de nos permitirmos assumir o lugar do inferior, do menos capaz? Beauvoir escreveu lindamente sobre a mulher enquanto construção social de nossa história recente e em nada discordo das suas linhas. Fiz do primeiro volume de Segundo Sexo a bíblia de minha igreja pessoal. Contudo, nem ela nem eu conseguimos pontuar quando foi que esses lugares sociais foram criados. Eu culpo a história e seus livros escritos por homens brancos e europeus. Sempre os culpo. Não há qualquer chance de termos acesso a uma estória verídica e plural, como todo fato o é, enquanto formos leitores de um único escritor. A pluralidade dos acontecimentos se perde na visão unilateral e tendenciosa de quem quer perpetuar os fatos conforme a sua vontade. É como perguntar o motivo do divórcio a somente um dos cônjuges, a resposta dificilmente será a narração do que de fato se passou.
Algumas mulheres nascem e já são educadas como sábias, guerreiras, amazonas atenienses em seu mais puro mito de ser livre e forte, destemidas. Outras passam a vida a se mutilar pelo benefício da tal edificação do lar que nunca virá. O nosso lar, físico ou metafórico, depende da capacidade das mulheres de se ver e de se identificar enquanto partes cheias de desejo. É preciso edificar dentro de si para pensar nas construções externas. Somos todas plurais e cheias de desejos mas muitas vezes não sabemos ou não vemos valor nisso. Quando vejo uma mulher postar em uma rede social que reza dia e noite para que Deus a ajude a sobreviver a um lar de abusos, me lembro de tantas passagens bíblicas que poderiam servir mas, em vez disso, oferecem a ela o mesmo versículo de sempre. Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos. Nunca falha: está nela a culpa pelos males do mundo.
Seja você uma Enedina Marques ou uma Maria do Amparo Xavier, não deixe de forma alguma de valorizar a sábia em você. A beleza de ser humano está em ser capaz de entender, de edificar razões. Somos nós os dotados de cérebro e raciocínio lógico. Não ache você que uma forma de saber vale mais do que a outra. Isso é importantíssimo! Uma mulher que sabe bordar e que cozinha refeições frescas ao marido e filhos todos os dias pode estar vivendo a sua plenitude da mesma forma que outra que vive sozinha com três gatos, lasanhas congeladas e sem se depilar. Eu entendo a estupidez da situação mas toda certeza é incerta, e disso eu tenho certeza.
Precisamos aprender a dar a mão às outras tolas e mostrar a elas o caminho do saber. Não do nosso saber único e soberano, como o pretenso saber que combatemos neste momento, mas o saber de cada uma. Aquele saber único e intrínseco que cada um carrega em si. Múltiplo saber, múltipla força, verdades que se somam. O único caminho para uma sociedade igualitária, positiva. Quando encontrar em seu caminho outra sábia, valorize o saber dela, some ao dela o seu, aprenda com ela. A você, homem sábio, ofereça no altar de sua mulher toda a riqueza que tem porque você também já ouviu muito que essa ai ao teu lado vale mais do que rubi, não é? Sim, vocês nunca repararam mas estamos todos lá, na mesma missa, lado a lado, tentando sobreviver à história escrita para escrever algum roteiro alternativo que nos livre dessa desgraça toda. O homem e a mulher sábios constroem a casa que lhes faz bem.

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