Desculpa te incomodar mas eu fui estuprada
Prezadxs, estima-se que a cada 11 minutos uma mulher seja estuprada no Brasil. Enquanto eu decidia se escreveria ou não sobre esse episódio da minha vida, 390 mulheres foram estupradas só no Brasil. É preciso parar e respirar pra reler esta frase, o peso desta única sentença é incrível! Eu penso em mim e imagino o que está acontecendo agora com um millhar de mulheres agora, enquanto escrevo, enquanto você lê. E mais uma mulher acaba de ser etuprada. E enauqnto eu releio, mais uma. E mais outra.
A forma mais comum de tirar o valor de um discurso é evaziar a sua importância, diminuindo o seu peso, troçando. Acontece assim com os negros que são mimizentos por exigir um mínimo de reparação e respeito. Acontece assim com os sexualmente não normativos que são mimizentos porque exigirem direitos e respeito. Acontece com nós mulheres que somos mimizentas porque não queremos mais ser violentadas e exigem repsieto. Que ousadia dessa gente, exigir respeito... Tem que rir! A política do Pão e circo não foi criada por uma mulher. Ou um negro. Ou por um travesti.
Ninguém mais quer voltar pra senzala, ninguém mais quer voltar pro armário, ninguém mais quer voltar pra cozinha. É tudo mi mi mi, é reclamação em excesso, falta do que fazer. Preto pode votar, homoafetivos podem se casar, mulheres podem ter empregos. O que mais essa gente quer? Já falei isso antes e digo mais uma vez: quando achar que alguem resistente demais a qualquer mudaça, questione se esta pessoa não seria o exato grupo beneficiado pela manutenção da ordem. Ou do que se chama de ordem.
Homens brancos e euro-centrados escreveram os livros de história e criaram as leis. Todas? Sim, todas. E a resistência pra que essa ordem seja desfeita é imensa! Existem várias formas de se exercer poder e uma das mais crueis é o poder por legitimidade. Manda porque sim, obedece quem tem juízo. Pedir que um homem de pele clara acolha aluta por direitos de quem não tem nenhum é exigir que alguem ampute o próprio braço ou perna. Mas acredite: há quem ampute sem pensar duas vezes.
Vez por outra, entre trancos e barrancos da história contemporânea, vemos os senhores dando os braços aos subservientes, aumentando exponencialemnte a capacidade de exigir mudança de qualquer movimento. O que seria de Simone Bovoir se não fosse casada com Sartre? Talvez não fosse nada. Talvez tivesse sido uma reles mortal, mãe de 13 filhos, boa cozinheira e exímia bordadeira. Sem Sartre, ela possívelmente não teria feito história, e não seguiria inspirando homens e mulheres até os dias de hoje. Sozinhas, as massas menos favorecidas mal tem força pra sobreviver e isso é fato.
Uma pesquisa Datafolha de 2016 revela que 32% das mulheres entrevistadas acreditam que a culpa do estupro é da mulher que não se deu ao respeito. Veja, não foram homens que disseam isso, foram mulheres. Se uma mulhjer não sofreu violência sexual, ela conhece alguma outra que sofreu. Isso sou eu afirmando, mas poderia muito bem estar nesta mesma pesquisa. Uma mulher a cada 11 minutos. Qualquer mulher que nega essa realidade pode ser isncrita em um dos dois grupos: das que finge que não aconteceu ou das que fingem que não viram.
Em 2018, Liesbeth Kennes, que faz parte do grupo de apoio a vítimas de estupro CAW East Brabant, organizou a exposição "A culpa é minha?" que foi exibida em Bruxelas e que desencadeou uma série de exposições similares pelo mundo. Uma foto da exposição ilustra essa carta. A exposição é chocante: roupas normais. Como Kennes ressaltou muito bem, são roupas que eu e você usamos todos os dias. São as rouaps que as nossas filhas e sobrinahs usam todos os dias. Nos escritórios, nas lanchonetes, nos infantários, são roupas normais. O detalhe é: são as roupas que mulheres usavam quando foram estupradas.
Nenhuma mulher pede pra ser estuprada, se você cresceu no patriarcado e isso te impulsiona a questionar a legitimidade do estupro, repita isso dez vezes: nenhuma mulher pede pra ser estuprada. Aquela guria fofinha que bebia e te pedia uns tapas, estava consentindo. A sua esposa que gosta de fingir que o sexo é forçado, de criar uma história elaborada com invasão de propriedade e amarras na cama está consentindo. A sua vizinha que te manda um SMS pedindo pra você pular a janela e serpreende-la na cama esta consentindo. E esse é o limite do estupro. Consentimento.
Se a mulher disse que não é estupro. Se a mulher não tem condições de dizer que sim, é estupro. Se a mulher não te pediu pelo sexo, é estupro. Se a mulher é menor de idade é estupro. Se a mulher disse que queria, desitiu e você decidiu continuar, é estupro. Se a mulher está dormindo é estupro. Se a mulher está inconsciente é esturpo. É estupro. É estupro. É estupro. É estupro. É estupro. É estupro. Enquanto eu escrevia essas palavras, cerca de 10 mulheres foram estupradas. E a grande maioria delas não vai procurar ajuda, não vai denunciar a violência que sofreram. Eu sei porque assim mostarm as estatísticas: nós não denunciamos.
Eu reuni minhas vizinhas mais queridas, amigas do coração pra uma noite com coqueteis. As crianças foram alimentadas, todas de banho tomado e a casa pronta pra semana que viria a seguir, sentamos para ouvir música, conversar e experimentar drinks. Algumas de nós nunca havia bebido um coquetel na vida e a noite foi planjada pra ser histórica! Tinhamos a certeza histórias sairiram daquela noite mas nunca nenhuma de nós imaginou que um esturpo tambem tomaria lugar naquela vila fechada e segura, em bairro nobre de Curitiba.
Meu ex-marido ligou, queria ver o filho. Sempre deixei a visitação em aberto, ele podia ver o filho quando fosse, contanto que avisasse antes. (Que absurdo, uma mãe que exige ter uma vida própria, limites e respeito!) Já era difícil contar com ele pra uma visita a cada 15 dias, mesmo ele morando a cerca de dez minutos a pé de onde moravamos. Quando ele queria ver o filho, a resposta quase sempre era sim, claro. Ele chegou, entrou e a nossa noite das mulheres continuou. Portões fechados, estavamos todos quase seguros, não fosse o fato de termos convidado o mal para entrar.
Lá pelas tantas, já não havia uma mulher em condições de beber mais e a festa acabou. Entrei na minha casa, tomei meu banho, meu filho ao meu lado na cama. Até que alguém sobe em cima de mim e eu mal percebo. Já não estava totalmente acordada, já não tinha consciencia do que se passava. Acho que dormi, porque o que vem a seguir na minha memória é de manhã quase clareando, e ele está sobre mim, me penetrando e eu mal digo: sai de mim ou eu vou vomitar.
Não, não era vômito de excesso de álcool. Misturamos muitas bebidas, o que me deixou bem bêbada mas não foram grandes quantidade. Eu tinha era nojo. Aquele homem sobre mim era o mesmo que eu divorciei quase quatro anos antes. Era o pai do meu filho, homem abusivo que me custou quase um ano pra deixar de vez e estabelecer uma distância adequada à minha saúde mental. Era um homem de bem que vivia com a "mulher da vida dele" a menos de duas quadras da minha casa.
Era o mesmo que tentou durante o casamento destruir a minha alma, com sua manipulação e comportamento passivo-agressivo. Não, ele nunca me bateu. Não, ele nunca me estuprou antes, mas tambem semprefui muito vigilante da minha vida e dos meus espaços. Eu sou fisicamente muito bem estbelecida e qualquer tentativa de qualquer uma das duas opções e ele teria arrumado um grande problema pra ele. Meu ex é daqueles que te destroi aos poucos, que vai te fazendo acreditar que o problema é você e que você esta dificultando que ele te ame. E você então se doa mais, se perde mais. Ele te suga e te faz crer que a culpa é sua.
Mas eu me livrei dele, por fim. Outras se livraram ainda em menor tempo, outras levaram mais. Engraçado como as ex dele me acham. Nunca entendi porque mas também nunca vou esquecer o dia que a primeira ex dele me encontrou e disse "se eu soubesse, Carol". Mas não tem como saber. O predador tem essa característica: sabe caçar. Ele vai certinho nas mulheres com baixa auto-estima, mulheres que ele pode tirar qualquer benefício e só se alonga onde tem terreno fértil pra plantar e colher. Ele é meticuloso, fala baixo e calmamente. A voz dele é quase um consolo. Mais de dez minutos observando ele falar e você o toma por um anjo. Todos caimos nessa, não se culpe.
Naquela manhã, logo que o dia amanheceu, uma das minhas vizinhas e o marido estavam à minha porta quando me levantei. Queriam saber se aconteceu alguma coisa. A vergonha me consumia e eu não conseguia responder aos questionamentos deles. Eles insistem e percebem o meu desconforto. "Nós te acompanhamos a delegacia, se quiser ir". Engoli seco. "Nao, não precisa. Esta tudo bem" Mas não estava. Noites sem sono, nojo de mim e do meu corpo e o excesso de doces e álcool me acompanharam por dias até que fui me encontrar com um amigo inusitado a esta altura: o padre.
Sim, sou católica e, apesar de muitas vezes me ver desencantada com a igreja, a Igreja me acolhe com muito amor e renova a minha força a cada visita. Pra quem não percebeu o que que fui fazer na igreja depois de ser etuprada, você não conehceu o Padre José. Aquele homem não só renova a nossa fé na igreja mas tambem na humanidade com Sua Palavra que é puro amor pela humanidade. O padre me disse que não precisava pedir perdão, eu não havia feito nada de que me envergonhar. Eu sei que não fiz nada, mas e o que fizeram comigo? Fingi que esqueci, estabeleci algumas regras de segurança e segui com a minha vida.
Acontece que de quando em quando isso volta a minha cabeça a cada vez que ouço um novo caso de estupro, essa história me atormenta novamente, como se tivesse sido hoje e eu estivesse acordando naquele domingo. Eu bebo mais, como mais, tenho mais nojo de mim e da minha história. Porque no final é isso: a culpa é minha porque fui eu que casei com ele, fui eu que deixei ele entrar lá em casa, fui eu que fui beber com as minhas amigas. E os casos vão aparecendo, e eu vou sofrendo e re-sofrendo... Nunca acaba.
Não tem final pra um caso desses, não tem desfecho. Eu nunca fui a delegacia e digo porque: não existe solução. Vivemos neste mundo onde "em briga de marido e mulher não se mete colher" e que as pessoas cantam que "todo ex-marido sempre come a ex-mulher" em festas. Eu não aguentaria fisica e emocionalmente passar por isso. Delegacia? Reportar meu ex-marido por estupro? Faço ideia do que iria ouvir. Todas as mulheres fazemos uma boa ideia do que se ouve ao reportar esse tipo de abuso. Nós sabemos que a culpa vai ser nossa e que vão nos esfregar mais vegonha na cara.
Então eu vivi todos esses anos guardando isso pra mim. Até que quinta-feira eu sofri um acidente, cai de rosto no chao ferindo o rosto em vários lugares, o joelho e tambem o tornozelo. Era um dia de festa na cidade e fomos ao rio assistir aos fogos da meia-noite. Coisa de meia hora depois não vi um degrau e cai. Imaginando que o pai estaria na festa, já que é um grande evento local, enviei mensagem perguntado se estava acordado e dizendo que eu precisava de ajuda. Como ir ao médico com uma criança quase uma hora da manhã? Iria ser demorado, de certeza, plantão no meio da noite sempre o é.
Em minutos chega a resposta: eu ate ajudo mas ele vai dormir comigo na casa da minha namorada. Foi um limite que eu prometi nunca ultrapassar: meu filho dorme com o pai sozinho, com as companheiras dele, nunca. Se você só chegou nessa história agora, o descuido dele com o filho é tão grande que temos um boletim de ocorrencia registrado por colocar o pequeno em risco e a guarda determina que eu tenho que ser informada a todo tempo onde eles estão e com quem. Eles sempre saem juntos, isso pra mim não é problema, mas na hora de dormir, cada um na sua casa. Eu apelei, chorei ainda mais: agora de dor e de raiva. A resposta era a mesma, se for pra ele ficar comigo, vamos dormir juntos os três.
Desesperada, fiz o que nunca me imaginei fazer: confrontei ele sobre a noite do esturpo, implorei por entendimento da minha situação. Ele riu. Alto. Deu um largo e jocozo sorriso demorado. Lembrei do dia seguinte, a vergonha voltou a tomar o meu corpo todo. Aceitei a minha derrota. Fui pra casa com a cara e a roupa suja de sangue, mas ali já era a minha alma que sangrava novamente. Gelo no rosto. Uma noite acordade entre dor e desespero. Gelo. Banho e chá pra ver se durmo um pouco. Só me vem mais dor e mais gelo. Decidi esperar meu filho acordar e peguntar a ele o que ia querer fazer: me acompanhar a médico já que a hora era mais razoável ou ficar com o pai. Ele fica com o pai, eu vou ao médico.
Dor, gelo, espera. Nenhuma fratura mas os dentes moles podem cair ainda. Ossos fissurados, músculos feridos. Mais dor e gelo. E aquele sorriso que não me sai da cabeça. A certeza da impunidade, a certeza de que lá de seu pedestal nada nunca vai o atingir. E talvez nunca vá mesmo. Mas o grito já não cala, não consigo mais des-dizer o que disse: você me estuprou com nosso filho do meu lado na minha cama. Está dito. Essas palavras estão no ar e ressoam nas minhas orelhas a cada hora dos últimos dias. Você me estuprou com nosso filho do meu lado na minha cama.
Infelizmente essa é a pessoa com que tive um filho. Infelizmente é com ele que vou compartilhar decisões e aniversários até que o meu filho seja capaz de se cuidar sozinho. Não vou me livrar dele tão cedo, já que o nosso menino só tem oito anos mas eu preciso reparar o mal que fiz em me calar. Eu não posso correr o risco de entrar para as estatísticas como mais uma mulher que se calou. Eu não posso deixar impune um crime desse tamanho contra o meu corpo, contra a minha dignidade. Eu não posso e não devo. Não posso por mim, não devo pelas outras mulheres que têm medo ou vergonha ou se sentem sozinhas. Eu não vou pelo meu filho.
Eu fui etuprada pelo meu ex-marido.
Na minha cama.
Com meu filho do meu lado.
Eu não reportei.
Eu tenho vergonha disso até hoje.
Eu não fiz nada de errado.
QUE TENHA VERGONHA ELE.

Comments
Post a Comment