Memórias póstumas
Prezadxs, eu mal conhecia Migliaccio. Como ator, como homem, como pessoa, eu mal o conhecia. Não sou leitora de jornal, não assino revistas e não tenho uma TV. São escolhas difíceis mas em meio a essa situação caótica em que nos vejo hoje não havia escapatória: era preciso me afastar das mídias que produziam conteúdo barato, vazio e manipulador. Era necessário este corte definitivo com o comum para buscar novas e melhores formas de me conectar ao mundo exterior. A empreitada foi um sucesso, por assim dizer, sem novelas telejornais tendenciosos e presssão dos ídolosmidiáticos, encontrar caminhos que me oferecessem alguma certeza e com os quais eu me identificasse foi muito mais fácil. Fácil concluir que as vezes a ignorância é, realemnte,uma benção.
Mas não é isso que me tras de volta às penas. O fato é que eu não conhecia Flávio e muito mal poderia comentar, com propriedade, duas linhas acerca dos seus personagens que tive a oportunidade de acompanhar enquanto nova pela rotina globo-centada da casa de meus avós. Posso assegurar que ele era, paramim, um rosto familiar, pessoa desconhecida. Mas me identifiquei muito com sua carta de adeus. Ela, com toda a certeza, poderia ter sido escrita por mim em alguma das oportunidades em que fiquei mirando o horizonte do alto da ponte Luiz. Sim, muitas vezes cansei desta vida a tal ponto que o meu medo de altura era pouco para me afastar do cume daquela saída rápida e indolor para a minha existencia conturbada.
A depressão não é uma doença qualquer, é um mal que acompanha maior parte de nós na nossa rotina massacrante e que nos deixa muito próximos muito do Flávio. Perto demais. De longe eu consigo sentir o cheiro do suor escorrendo pelo pescoço dele. Não sei se ele tomou banho antes de dar fim a própria dor para deixar que sofressemos nós, sobreviventes a essa tragédia anunciada, mas eu sei o quanto suo quando durmo. Meus pesadelos se torrnam tão reais que o odor de minhas desventuras acorda comigo. São a proc«va incontestável de que aquilo tudo existiu. A desventura era real, a dor é real.
Mas algo mais me faz sentir grande empatia pelo momento que sua família enfrenta: tambem serei vitma desses falsos moralistas que não se importam com nossas contas atrasadas ou com a nossa insônia. Eles fazem pouco da nossa dor e se riem com força de tudo que cerca nossa existência mas todos - e repito - todos aparecem abatidos e fúnebres aos nossos velórios para dizer uma ou duas frases prontas sobre como eramos próximos e importantes um para o outro. Contudo não eramos.
Sim, como Flávio, vou estar em algum lugar observando a hipocrisia alheia me roubar meus últimos momentos de dignidade no mundo. Depois disso, alimentaremos a terra e nunca mais seremos os mesmos. Na hora das homenagens, na hora de gente fina, elegante e sincera me dar o último adeus, certamente algum parente que hoje ri da minha dor vai contar uma história parcialemnte real sobre nosso carinho mútuo. Balela! Nascemos sozinhos e sozinhos vivemos. Cada tropeço foi nosso e somente nosso. Cada vez que nos reerguemos foi sobre o peso de nossas próprias pernas. Eu entendo e cncordo com Migliaccio, a humanidade deu errado. Falhamos. De tudo que poderia dar errado, erramos no básico, em sermos humanos.
Como poderia passar sem uma nota de repúdio, já que estas estão tão em voga, às homenagens de colegas de profissão que, independente do quão presentes estivessem em sua vida, foram o motivo de sua dor? Garoto propaganda de Aécio? Eleitor de Bolsonaro? Essas pessoas são o único e real motivo porque a humanidade falhou. Egoístas, sociopatas, esnobes, pretensos nobres afogados na própria soberba... Vocês são o motivo porque não demos certo, são o motivo porque não temos mais um homem bom e gentil caminhando pelas ruas. Um militante do bem estar social, pelo que pude conhecer dele nos dois últimos dias. Um homem humano, a excessão entre nós.
Os tempos são difíceis e muiats pessoas boas têm nos deixado de forma inesperada. Do dia para a noite, temos oito vezes mais mortes no mundo por hora e muitas mães, muitos filhos estão sendo despejados em covas rasas cobertos com cal, terra e desonra. Para eles não há velório, para eles não há coroa de flores. Muitos dos melhores homens e mulheres estão expostos ao vírus mortal e correm o risco de serem incinerados na rua, sem cerimônia, por seus entes queridos tão perdidos quanto o governos federal braisleiro nos dias de hoje. Com menos recurso e com mais razão, talvez. A todos eles devemos respeito, devemos o silêncio quando não pudermos dizer mais nada. A cada um deles, quem elegeu essa leva de políticos fascistas que rege algumas das maiores economias do mundo deve mais do que uma mensagem de falsa moral e questionável saudade, deve uma nota com o mais honesto pedido de perdão. Perdão, Flávio, eles não sabem o que fazem.

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