Como o machismo está exterminando os machos

Prezadxs, esse é Bernardo, o gato.

Quando um grande amigo publicou dois dias atrás uma foto de seu gato urinando no vaso sanitário, comecei a buscar na minha memória alguma informação de felinos sendo assim tão higiénicos. Lembrei de uma aula de biologia que tive alguns anos atrás em um santuário animal na Austrália ou Nova Zelândia, não lembro ao certo. O guia nos explicava como os felinos são fortes e ágeis mas que são, na verdade, bem delicados e sabem disso, por isso não procuram briga e, se a briga é inevitável e o oponente é um perigo real, eles fogem. Os felinos, independente do tamanho, têm o sistema imunológico muito frágil e uma única ferida em seu corpo é o suficiente para que desenvolvam grandes infecções e morram. Burburinho na plateia. Sim, basta que sejam arranhados por uma presa de outro animal ou que um espinho lhes fira a pata para que uma infecção tome conta de seu corpo, dando fim a sua vida muito rapidamente. Por isso, felinos são super cuidadoso, higiénicos.

 UAU! Quero dizer, UAU! Eu imaginando o leão super rei da selva, supremo, maravilhoso, imbatível, soberano, pleno. Basta um arranhão pra que o grupo perca seu líder. Dou-te tempo para que pense em uma melhor forma de entender a fragilidade da masculinidade humana. Estamos dizendo a filhos, sobrinhos, namorados, amigos e maridos para serem feras implacáveis, fortes, dominadores, mortais, reis! Mas basta um arranhão pra que a masculinidade que consumimos e reproduzimos em torno de suas imagens seja ferida de forma letal. O uso do banheiro, para mim, é exemplo irrefutável disso. Não podem se sentar para usar ou perderiam sua virilidade, afinal, mulheres que sentam para mijar.

Já parou para pensar de onde será que veio essa ideia parva de erguer o assento para usar o vaso? Será mesmo que quando baixamos a tampa toda sujeira desaparece? Mas responsabilizar os homens pelo produto de suas 'mangueiras encantadas do poder' poderia ser o arranhão fatal. Então que eles mijem por baixo do assento e nós, por nosso lado, vamos ignorar o cheiro de amoníaco apodrecendo o ar. Porque não podemos deixar nossos homens lidarem com a sua imperfeição, assumindo as suas responsabilidades de serem humanos e falhos? Porque não limpar o que se suja? E de limpeza minha avó entendia. Perguntaria logo se iria cair a mão caso limpassemos a nossa sujeira. Mas éramos todas netas mulheres, ninguém ali estava em risco de ser ferido.

Ocorre, meus caros, que em toda espécie, a constituição física dos machos e fêmeas é, essencialmente, igual. Mesmo em certos tipos de aranha e gafanhotos que têm machos consideravelmente menores que suas fêmeas e que são mortos após a cópula, o corpo frágil do macho tem função e o corpo excessivo da fêmea também. Ela vai ficar até o último dia de sua vida servindo à cria e não vai se mexer mais, mesmo vendo seu fim de aproximar, ficará imóvel. Se o macho é devorado depois do sexo, queridos, a fêmea se suicida logo depois. Não há, na natureza exemplo de reprodução sexuada que dispense metade das gametas. As duas doações são igualmente importantes. Não há sexo frágil, não há sexo mais importante.

Mas, nós, animais de inteligência e razão, achamos por bem desenvolver um sistema insustentável que nos coloca em posição de eternos rivais. Sim, homens e mulheres foram colocados em lugares opostos e os opostos só se atraem se for pra porrada. Sem meias palavras, sem metáforas, a verdade nua como sempre deveria estar: a biologia nos fez complementares e a sociologia nos fez oponentes. Isso é inédito na história!

A convivência e a integração são, via de regra, responsáveis pelo desenvolvimento de mecanismos de colaboração bilateral. A necessidade nos faria comensais, nos ajudaria a criar uma rede de apoio e benefício mútuo, nos tornaria uma familia. Mas somente se não fossemos capazes de pensar. Pensantes, preferimos nos combater. Preferimos lutar com unhas e dentes para sermos como a aranha ou o gafanhoto. Racionais, vimos mais benefício em dedicar nosso a energia a nós atacar e destruir perfeitos exemplares da nossa espécime. Nós escolhemos a autodestruição e isso não pode estar certo.

Quando olhei para a foto do Bernardo usando o vaso sanitário no dia seguinte pensei se ele estaria se sentindo menos macho porque estava de córcoras. Fiquei muito tempo pensando nisso porque quando me casei, o uso do banheiro era um caso gravíssimos de discussão -quase monólogo- recorrente. "-Homem não mija de pé", ele dizia. Mas então limpa a cagada que faz, eu argumentava sem sucesso. Não era possível. Para a grande maioria deles não é. Rever o seu lugar no topo da cadeia alimentar de reis da casa/selva, fere mortalmente a sua moral de machos, de alfas, de líderes. Nossos homens são criados para um lugar bem específico e lá devem ficar. E fiquei me questionando, estimulada pela existência do gato Bernardo, se nossos homens precisam mesmo ficar onde estão.

Eu tenho um filho de seis anos e ofereço a ele tudo que posso como ser humano que sou, criando outro ser humano. Ofereço carinho, acolhida, respeito e incentivo. Ofereço informação, ofereço oportunidade. O pai ensina que deve usar o banheiro de pé, levantando a tampa. Não discuto, pergunto se gosta de banheiro limpo e cheiroso, como o de casa. "-Claro que sim". Pois então deixe da mesma forma que encontrou pra quem for usar depois. Se levantar a tampa ou se sentar, veja se deixou limpo depois. No demorou muito pra que ele mesmo começasse a ensinar o pai a limpar a própria cagada. É possível que essa seja a saída para o caos: uma geração que não tenha medo de ser quem for. Gay, hetero, assexuado, mijando de pé ou sentado, nada disso importa para mim. A mim só importa que tenha respeito pelos que vão usar o banheiro depois dele, portanto aprenda a limpar. E pelos que vão usar a praça de alimentação dele, portanto que aprenda a recolher e desfazer a sua bandeja.

A mim importa que ele tenha respeito por quem vai usar o planeta depois dele e, portanto, que cuide do meio ambiente e que encontre caminhos de fazer do seu futuro um futuro sustentável, seja qual for a profissão. E por falar em profissão, que ele saiba que pode escolher o que for por há grandes mulheres revolucionando a construção civil, as marinhas de guerra e outros territórios macho-dominados mundo afora. O que importa é ser feliz. Alguns anos atrás, ele pediu que o matriculasse no ballet. As amiguinhas de sala de aula faziam e algo em seus tutus o encantava. Levou uma semana para que estivesse já em sala, praticando com a turma. Duas semanas depois tive que tirar Gabriel do ballet porque nossos parentes o bombardeavam toda terça e quinta com o, não tão surpreendente, 'isso não é coisa de menino'. Nem é preciso me falar sobre todos os nomes de homens que mudaram a dança mundial para sempre! Sei deles, cheguei a pesquisar homens na história da dança para mostrar a Biel mas desisti desta guerra. Seria confusa demais e causaria feridas irreparáveis em um menino de apenas três anos. Melhor não arriscar.

Mas não me preocupa o afastamento dele da dança, sei que um dia, se for mesmo de seu interesse, vai saber onde encontrar sua própria música, seu próprio bailado. Me preocupa ele achar que não pode escolher. E faço meu dever de casa mudando o mundo através desse pequeno ser. Ocorre, entretanto, que não vivemos em uma bolha. Ele vai frequentar escola, vai ter colegas oprimidos e doutrinados, presos ao papel do leão. Não o lugar real do leão que vive lá na savana, porque este sabe a hora de correr, mas o lugar desse leão do nosso imaginário, esse machão, esse pegador polígamo que governa sozinho todas as fêmeas do grupo. Talvez seja falta do estudo de biologia, não sei, mas os leões não são como os imaginamos.

Pobres de nós que não conseguimos deixar de lado esse cenário aterrorizante. Estamos ainda escravos de homens leão. As mulheres estão, faz pouco mais de cem anos, buscando ressignificar seu espaço e sua participação na matilha, mas quem vai olhar pelos homens? Tão frágeis e expostos que nem mesmo são capazes de ver o quanto são delicados! É isso! Não adianta o feminismo brigar por espaços de debate e por melhorias efetivas para a vida das mulheres. Ficaremos, assim, deitadas em um buraco, servindo de alimento para nossa cria que vai seguir crescendo sem pai. Precisamos de um feminismo que entenda o quanto o machismo destrói, também, a vida dos homens.

Eu sei, o argumento evidente é: "-Mas o machismo mata mulheres todos os dias, não mata homem nenhum". Eu sei. Também foi o primeiro que me veio a cabeça mas o homem que mata a mulher também não está vivendo, ele está sobrevivendo, tentando manter a cabeça pra fora da água que nos nivela e o sufoca, está tentando oferecer a sociedade a macheza que se espera dele. Ele está destruído na alma e, muito provavelmente, já engoliu muito choro porque chorar não era coisa de macho. Esse homem também está, em muitas formas, morto. Eu entendo e aceito de coração aberto todas as estatísticas mas enquanto não entendermos que o feminismo não pode deixar de rever o mundo e não só o lugar da mulher, nada vai mudar na sua essência, e a nossa essência está podre. Mudamos uma lei ou outra mas cada uma dessas vai cair na primeira oportunidade. Precisamos mudar o mundo. Isso sim é uma frase de impacto, isso sim é uma verdade.

Se a ideia fosse levar essa reflexão para o campo académico, Freud e seu colegas seriam de grande valia para argumentos sólidos mas não me interessa esse caminho. Me interessa olhar menos para o todo e mais para dentro da minha própria casa. Que feministas somos nós que estamos pleiteando igualdade de direitos mas que falamos aos nossos filhos para sucederem afim de poderem levar as suas mulheres para jantar? E se não tiverem mulheres? E se viverem com dois gatos? E se tiverem outro homem com eles? E porque não dividir a conta? Sejamos sinceras, jantar fora é lindo mas ter um homem que te ofereça uma comida bem feita em casa e que ainda lave a louça leva o sonho de uma noite perfeita para outro nível, não? Comer bem vestindo o seu próprio pijama e com a possibilidade de pegar os drumetes com a mão? Eu quero raspar o molho do fundo da tijela com o dedo e lamber. Esse é o sonho.

O meu sonho. Não precisa ser o seu. Não deveria mesmo ser o seu! Eu olho pra dentro da minha casa e tudo que me vem a cabeça é que não pude viver meus sonhos. Nenhum deles! Cada um deles que, porventura, persegui, calhava de se sobrepor ao sonho de alguem mais e eu tinha que adaptar pra não ferir ninguém. Porque eu também sou vítima de uma sociedade machista e patriarcal. Eu também cresci tendo um lugar separado para mim. Hoje eu vivo com as minhas feridas e vou ter que viver para sempre. Vou tentando dar jeito com alguns remendos temporários, com umas mandingas, com alguma reza e com muita terapia mas algumas feridas não tem cura. De alguma forma, nós, as fêmeas humanas, nós somos os leões. Nós somos os reis cheios de força e graça natural, líderes por instinto, mas cientes da sua limitação. Nos temos a força pra encarar qualquer coisa mas sabemos quão mortal pode ser uma ou outra ferida. Eu sei onde foi que já me doeu e até onde eu posso ir. Eu sei bem o quanto sangro. Não quero para homem nenhum que ele viva a sua vida inteira sem entender que tem escolhas e que ter um pênis não faz dele uma máquina de reprodução.  Seu pênis só pesa o quanto ocupa da cueca. Não quero que meu filho herde deste mundo o peso de ter que mandar e desmandar em mulher nenhuma, quero que ele se sinta forte o suficiente para ter ao seu lado outro exemplar da espécie tão forte e liberto quanto ele. Os homens parecem não terem entendido ainda que o feminismo não veio pra salvar somente as mulheres, ele veio para salvar a todos nós.


Sonha, meu filho. Sonha que eu te darei a mão.

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