Sobrevivência

Decidi escrever sobre como estou passando por essa pandemia trancada em uma casa com meu filho e meu ex-marido. É, a covid-19 tem nos forçado certos aprendizados dispensáveis e outros cenários mas não há opção neste caso. Pois repleta de angústia, dor, medos, tisteza, ansiedade e sofrimento, acendi uma vela ao Santo Google para que me abençoasse com uma imagem que refletisse o meu momento, digitei SOBREVIVÊNCIA. A imagem que surgiu foi a que estampa esta postagem. Não era bem o que eu esperava...

Não parece de grande importância mas eu sou minimamente esclarecida em termos de busca na internet e sei bem que as imagens que o google oferece representam uma realidade. Para ilustrar minha hipótese, sugiro digitar " Homem morto pela..." e deixe que o Google complete com sugestões. Em seguida, digite "Mulher morta pelo..." e proceda da mesma forma. Isso é uma realidade. Dolorida, subnotificada, camuflada e dissimulada, é real.

O que, no mundo, pode significar essa imagem aventureira e até mesmo divetida, ser a representação que me foi ofertada de sobrevivência? Tento justificar para mim mesma que escoteiros fazem uso deste mesmo material quando se preparam para o apocalipse que nunca chega. Mas nenhum escoteiro usa o meu computador. Aqui só buscamos por termos menos frescos e juvenis tais como: meditação contra estresse; como se acalmar em uma crise de pânico; formulas naturais para combater a ansiedade; quando devo pedir ajuda; quem cuidará de seu filho no caso de minha morte precoce. Suave.

Mas ainda com toda essa informação a meu respeito o Santo protetor da informação e do gado bem aventurado achou por bem me oferecer um pirulito de morango, um cenário bucólico, uma canção de ninar, um beijo na testa. Patrircal. Em todos os sentidos. Se não fosse tão fora de contexto talvez passasse batido mas não posso ignorar uma bússula, uma faca e um seja-lá-o-que-for-isso. Eles simplesmente não cabem em mim, não pertencem ao meu mundo.

A pergunta que fica é: o Google está, paternalmente, me protegendo de uma representação gráfica da minha própria dor ou esta camuflando a existência dela como compete a todo bom defensor da sociedade machista em que vivemos? Gostaria que a voz mágica que habita o telefone fosse capaz de me responder esta pergunta mas acho que até a sabe-tudo ficou confusa com o meu tsunami mental. Enfim, se estava ruim, ficou ainda menos bom. É, não vou usar a palavra que não se pode dizer. Se não chega aos olhos ou aos ouvidos, não existe. Boa, Google! Me salvou de uma tremenda depressão.

Opa. Não. Não mesmo, não acabou. Esqueci de falar que ainda estou presa em casa com um menino doce e parceiro, uma alegria para os olhos e para o coração. Semente de amor e revolução que estou cultivando para presentear o mundo. E um sangue-suga emocional que joga video game dia e noite enquanto eu educo o nosso filho. Que exemplo de nada... Sabe, eu até que poderia passar o dia inteiro reclamando de cada vez que ele foi irresponsável, imaturo, ausente e até mesmo babaca, mas vou aceitar a sugestão do Santo e fingir demência. Se eu não falar, não existe. Se não estiver ao alcance dos meus olhos, nunca será real. Vou olhar para o outro lado e tentar sobreviver a mais este dia, só pra variar.

Amém.

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