Meu filho não é meu.
Prezadxs, é verdade: meu filho não é meu. Eu carreguei, eu pari, eu cuido, mas ele não é meu. Tem uma quantidade razoável de deboche nestas linhas mas não tem outra forma de colocar o óbvio: meu filho não é meu. E o mundo está ai pra me lembrar disso a todo tempo. A maternidade é uma coisa muito curiosa, o universo a sua volta espera que você dê a vida pela sua prole, entretanto não te permite usar um pronome possessivo ao se referir a mesma. "Meu filho" é quase uma ofença! "Como seu? Você não é dona de ninguém!" E ele nem chegou na adolescencia, quando ele mesmo vai proferir essas doloridas palavras.
A mãe é quem tem que sacrificar, é quem responde socialmente e criminalmente pelo bem-estar e sucesso da criança. A-ham, criminalmente. Mas o filho não é dela. Não fosse esta uma acusação grave o suficiente. eu tenho mais uma: é a mãe que, historicamente tem que ceder pra que a taxa de natalidade seja positiva na unidade familiar. Não crê? Vamos, meu irmão, vamos ver.
Sacríficio do corpo. Embora todos nós estejamos vivendo a ditadura da perfeição, é a mãe que tem que colocar o corpo perfeito à prova pra gestar a criança. Todos somos perfeitos e malhados, é claro, mas só um de nós vai precisar se esforçar dez vezes mais pra estar perfeitamente irretocável no próximo post do Instagram. Já ouviram falar em diástase abdominal? Pergunte a dez homens e, por controle, pergunte a dez mulheres. Não tem erro. O medo do corpo após o puerpério é tão grande que é citado como motivo para adoção e uso de barriga de aluguel por celebridades que influenciam as mulheres normais, como eu e você. Vocês podem achar isso normal, eu não acho.
Sacrifício da carreira. Nem vou falar em licença maternindade! Isso é o óbvio. Quero falar nos cursos fora do horário comercial que gostariamos de fazer mas o rebento já voltou da escola. Falo das reuniões pós expediente - digo no bar - onde associações são feitas e desfeitas mas nós não pudemos comparecer porque estavamos buscando os pequenos na escola. Que a Santa Cher as ajude a conseguir se manter em um mercado de trabalho que celebra o dia das mães com fotos e flores mas que permite a mãe acompanhar um filho doente por apenas um dia ao ano sem ônus salarial. O pai? Bem, eu conheci um pai que faltava ao trabalho para cuidar da filha sempre que esta caía doente. Ele era um exemplo de pai e um Deus da parentalidade entre todos que o conheciam. O verdadeiro team player da empresa. Ele. Um. As mães que fazem isso todos as mudanças de estação? Preguiçosas. Sem compromisso. Egoístas. Péssimas funcionárias. Definitivamente fora da próxima da lista seleta pra promoção interna.
Sacrifício da integridade. Nunca mais você vai se sentir sozinha. É uma benção e uma maldição. Não tem mais como cagar em paz, não tem mais cafezinho deitada na rede - líquido quente e superfície instavel são receita para um desatre. Deus me livre ter espaço pra masturbação na sua vida! Você não é mais você porque só a mãe entende, só a mãe aguenta: tem que ser a mãe. Você nunca mais será você, você agora é a mãe de alguém. Teve fim a sua unidade, sua individualidade. Não se assuste se um dia assinar um cheque como "mãe do fulano", você se perdeu. E se perde de cedo, ao entrar em uma sala e ter pessoas falando com a sua barriga antes de lhe digirirem a palavra, você tem a certeza de que você não está mais ali.
E está enganado que pensa que há resistência. Já de cara, nós somos dominadas pelos hormônios de tal forma que quando damos conta que tem alguem dominando nossas vidas, dentes cravados em nossos pescoços sugando a vida de dentro da gente, já é tarde demais e não tem mais volta. O amor já se instalou. Um amor tão intenso que transborda em lágrimas de tempos em tempos. É um amor que não cabe em uma só de nós e por isso tem esse outro pedaço de nós correndo por ai. Já disseram que os filhos são o coração fora do peito e eu concordo, são mesmo. São o coração, os olhos, a mente. Pelos filhos vamos decobrindo o mundo de outra forma, venos as coias por outros olhos, damos ao universo uma nova chance de nos encantar.
Sabe aquela história de que temos filhos pra que alguém nos tire do sol quando ficarmos velhos? Esquece! Os filhos honram a sua existência da hora que nascem e se hipnotizam com a nossa voz. É quando você para pra pensar em como a voz tem tom, tem textura, tem mensagens mil a cada som. E o peito! Oh, meu Dues, o peito! O amor que um bebê tem por um peito é inacreditável, é de recobrar a confiança na humanidade a cada mamada. Precisamos de pouco, precisamos de um peito. Um peito e o mundo vê paz. Aconchego, carinho, silêncio, satisfação. Talvez o mundo só precise de peitos, afinal.
Ainda não ficou muito claro se isso é uma carta de amor ou um relato de puro ressentimento com a maternidade? É porque aqui cabe sempre um pouco dos dois. Dos filhos vem o amor que nunca vai ter medida, que nunca vai ter limite. No momento que nasce um filho, nasce uma mâe e isso não é tirinha de revista. Ali nasce uma nova forma de ser, de estar, de se ver e se perceber. Pra mim, a materinidade foi transformadora e, definitivamente, o maior sucesso que espero alcançar na vida. Mas nós não vivemos em uma bolha, vivemos no mundo cruel que estampa as páginas dos jornais com morte matada e morte morrida a cada dia. Pro bem e pro mal, a maternidade é brutal.
Algumas tantas mães carregam no corpo e na alma as marcas da maternidade muito diferentes das minhas. Se ser mãe foi um doce? Não, não entendam mal, houve um pai e onde há um pai, na minha experiência, há dor e sofrimento, mas eu ainda me sinto muito segura em dizer que vivi a maternidade como uma experiência positiva. Eu tive que abrir mão do parto que planejei porque meu corpo não estava dando conta de gerar, preparar para parir e assimilar a violência do pai. Mas ele nunca me bateu. (tema para outro dia?)
Eu consegui: eu parir, eu amamentei, eu curei a cicatriz.
Mesmo com as minhas dores todas de passar pelo puerpério e vivenciar a maternidade sozinha, eu faço terapia uma vez na semana e consigo agradecer por ser mãe. Me parte o coração ver mulheres que não conseguiram isso. Que olham para os filhos e não têm qualquer conexão com eles, que ressentem a sua existencia. São de outra carne mas são da mesma carne, são duas partes do mesmo que não tiveram a sorte de se conectar. A experiência de ser mãe pra algumas é brutal, violenta e definitva. Felizmente desta eu me livrei.
O mundo não nos permite aproveitar a glória de ser mãe como uma dádiva. A maternidade plena que as redes socias pregam não existe e mesmo a condessa de Cambridge aparece com olheiras de tempos em tempos. A maternidade real é desafiadora o bastante por si só mas nós ainda temos todo o resto pra dar conta. O corpo muda e somos menos desejadas por isso. Não somos mais bem-sucedidas profissionalmente e somos cobradas por isso. Não somos mais só nós, e isso é um peso para o mundo. Quem quer saber de alguém deformado, sem carreira e que tem sempre uma criança consigo? Não, não é inadequado rir e se sentir embaraçado. Leia de novo: Quem quer saber de alguém deformado, sem carreira e que tem sempre uma criança consigo? Ninguém. É o fim, o abominável.
Eu vou fazer mais terapia e vou recobrar a minha unidade. Em tempo, vou ser eu mesma novamente. Vou continuar sendo mãe, por isso agora é parte de mim, mas a medida em que meu filho for ganhando o espaço dele no mundo, penso que eu também vá conquistando mais espaços em mim e ao meu redor pra chamar de meus. Eu vou estudar e aprender mais. Não pra retomar um suposto tempo perdido mas porque o trabalho não poderia ser a minha prioridade enquanto eu tentava ser mãe em um mundo desenhado para pais. Vou estudar e me preparar pra ser melhor profissional porque isso também é parte de mim e não pude me dedicar a essas duas partes de mim ao mesmo tempo.
Por vezes, pais e mães ensinam a criança a comer com talheres, a se vestir e a escrever o próprio nome. Ponto pra parentalidade compartilhada. Pergunta: quantos pais você já viu serem cobrados pelas notas baixas ou pelo mau comportamento dos filhos? O filho é sempre visto como parte da mãe e ela vai ser responsável por ele pra sempre, mesmo ele sendo a cara do pai. Você que é mãe é você, mas você tambem é ele. Você comeu pelos dois e agora responde pelos dois. Mas não diga que é seu, não pode. Diga que cria para o mundo e que quer ver seu filho voar. Porque o voo dele teve um custo alto que foi só seu mas ninguém quer saber disso. O seu filho não é seu. O meu filho não é meu.

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