Aliencação parental e violência contra a mãe são irmãos siameses, não acha?
Queridxs, não estranhem o título. De cara eu já deixo claro que não tem mãe indiferente ao sofrimento do filho. Um pai que abandona o filho abandona tudo que cerca a criança e seu desenvolvimento. Abandona a escola, as praticas esportivas, a nutrição, a higiene, abandona o convívio saudável com as descobertas. E eu não posso falar muito de como o abandono influencia a vida dos pequenos mas eu posso falar com muita propriedade sobre como isso interfere na vida da mãe.
Meu filho tem um pai que é tão ausente quanto eu permitir. Por anos eu tive que mandar mensagem ou ligar e falar "ei, cade você? Gabriel não te vê faz XXXX tempo" Nessa época, eu ainda justificava a ausência ao meu filho. Desculpa filho, eu já aprendi. Dizia a ele que o pai estava trabalhando ou muito ocupado. Mentira. Ele gosta de jogar basquete e de se dedicar a vide-games. A isso ele se dedica grandemente! Mas o filho dele é divertido tambem. As vezes. Por horas limitadas e muito, muito espaçadas.
Quanto isso me importa? Muito pouco. Penso que a presença do pai na vida das crianças é muito importante e gostaria de promover esse convivio. Mas tambem penso no que meu pai truxe pra minha vida de tenho certeza de que se ele quiser desaparecer pra sempre, eu não vou reclamar por mais que dez minutos não. É só avisar: estou indo. Não finge que está presente, não diz que gostaria de vir ou de estar. Enfim, o bom e velho seja macho, cara.
A forma como isso me atinge, por outro lado, é muito mensurável. Eu lavo toda a roupa que o menino usa, eu faço cada refeição que ele come, cada lanche que ele leva para a escola. Eu ajudo com a tarefa de casa, eu tenho que garantir o bem-estar atraves de tarefas estimuladoras e contato com pessoas que acrescentem a ele alegria e conhecimento. A responsabilidade é toda da mãe, de mais ninguem. Se ele adoece, sou eu quem cuida. Se ele vai mal na escola, é a mim que chamam. Se um dia ele for preso, certamente vai-se dizer que foi por minha culpa. O pai? Quem lembra do pai?
Mas ninguem nunca me ligou pra saber cade o pai. Não é des-privilégio meu, sempre foi assim e já foi até pior. Cade o pai nas atividades escolares, cade ele nos passeios, cade ele no cuidado com o filho? Cade ele e as influências dele no Gabriel. Cade? Boa pergunta, não? Cade ele? Cade?
Eu sei onde está. Nunca me interessei por saber muito da vida dele mas acaba chegando uma coisa ou outra por aqui. Mas finjo que acredito tambem nas mentiras que chegam. Realemtne o paradeiro daquele um não me interessa. "Vou me mudar pra poder ter mais tempo com Biel e porder receber ele na minha casa" "Acaba que aqui é muito apertado, não da pra receber ele" E lá vai lee se forçando dentro da minha casa, onde não é bem-vindo. "Eu quero jogar basquete, posso ver ele de noite?" E já vai forçando a máxima do patriarcalismo em mim: Do bem-estar cuide você porque eu, pai, cuido de me divertir com ele quando der. Estou ajudando como posso. Poderia não fazer nada. Agradece por eu ter vindo.
Certo dia mandei a ele mensagem dizendo que Gabriel gostaria de morar com ele. Sim, desisto de ser a chata que chama cedo pra escola, pede pra comer frutas e beber agua. Vamos inverter, eu busco pra passear uma vez na semana. A resposta não tardou: ele iria sofrer muito, eu não conseguiria cuidar dele. Melhor continuar como esta. Tambem acho.
Não se assuste, foi um convite retorico. Eu jamais deixaria meu filho viver com o pai e tenho a mais absoluta certeza de que o pai nãoquer viver com ele. O pai não tem higiene adequada pra cuidar de si, quem dirá pra ensinar uma criança a se lavar bem. Mas é isso, o reconhecimento do esforço existe, e reconhecimento das necessidades múltiplas existe. Só não existe respeito pelo que não cabe no próprio umbigo. A dor do outro não doi em mim, então porque me importaria?
Só espero que meu filho esteja tendo boa medida de bons exemplos a sua volta.
"Nossa, quanto rancor...". Presadxs, venham viver nos meus sapatos uma semaninha apenas. Não precisa mais do que isso. Uma semana é mais do que suficiente pra ver o que eu e tantas outras mães que precisam ser heroinas porque a opção ser ser humana não nos é facultada. O que eu tenho que ver meu filho passar talvez seja mais sutil pela minha ótica. É possivel que eu seja tendenciosa quanto ao cuidado com Biel mas garanto que louca eu tambem não sou. Porque é sempre o argumento: você é louca. É a versão pai ausente do argumento "mas e o PT?" dos bolsonaristas.
Anos atras apareceram lesões de herpes no lábio de Biel. Liguei em furia para o pai. Ele desigou. Escrevi no Facebook pra jogar a M*** no ventilador mesmo... Ele me bloqueou. Por anos eu e a médica de Biel já haviamos falado sobre dividir talheres e copos e de nada adiantou. Até pirulitos o pai dividia com o menino. Pois sim, agora o bacuri tem que viver com herpes o resto da vida. É pra semrpe, como pai. Sem comparar os virus. - Pausa pra rir da piada, mas é riso de nervoso, acreditem.
Ontem Gabriel chega em cas contando que teve que dividir a garrafa de água com o pai e a namorada do pai durante um passeio. COMO?? "Mas e a sua garrafa?" "A água dele estava mais fresca que meu pai falou". É isso. Responsabilidade zero, cuidado zero. E adivinha? quando a resposta do email que enviei chegar a resposta vai ser: você está louca.
Alguns pais percebem e aceitam a merda que fazem. Pedem ajuda, pedem desculpa, se esforçam pra superar a própria limitação. Vão se cuidar pra assim, cuidar dos filhos. Outros são como o que meu filho tem. Mães são perfeitas? Claro que não. Mas não temos o direito e dever de para um dia para sermos ruins, falhas, inconsequentes. Nós temos que ser as super mães o tempo todo ou o mundo perde o equilibrio e cai na escuridão eterna do caos.
Não vou me culpar pelo pai do meu filho porque não sou eu quem escolhe por ele, mas dói no peito pensar que eu poderia ter simplesmente virado as costas e ido em outra direção, sozinha. A vida seria outra, minhas marcas no rosto seriam outras, meu sono seria outro, meu corpo seria outro. Mas quem escolhe o caminho fácil são os pais, não as mães, então cabeça erguida! Vamos nós pra mais um email cheio de abuso, desculpas e irresponsabilidade.
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